- Jorge Innocêncio da Costa

- 17 de abr.
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Atualizado: 24 de abr.

Autor: Jorge Innocêncio da Costa
Certa vez, me disseram que as mães têm uma linha direta com Deus. De maneira alguma questiono; pelo contrário, certifico o quanto elas fizeram para nos tornar a vida mais doce.
Eu, tal como muitos de meus leitores, nasci ou fui criado nos bairros simples da cidade, em ruas sem asfalto, as quais nos permitiam entrar em poças de lama após as chuvas.
Nossas idas ao centro da cidade eram raras, não mais que uma ou outra por mês, para irmos ao mercado ou ao médico, numa aventura que começava no ponto de ônibus, sob a sombra de uma grande e centenária árvore que até hoje ainda existe no Jardim Alvorada.

Lá aguardávamos, ansiosos, a chegada do ônibus que, na época, chamávamos de ônibus do Bochi, em referência aos donos da viação. Como crianças não pagavam, passávamos por debaixo da catraca, o que era o primeiro ato da grande aventura daquela manhã ou tarde, que, certamente, se tornaria ainda mais mágica se conseguíssemos um lugar nos últimos bancos, que eram mais altos e nos estimulavam à imaginação, como se fôssemos pilotos de avião. Sem alcaloides, tínhamos apenas os recursos multimídia de nossa mente.
Descíamos, muitas vezes, em frente à igreja matriz, onde a visão de uma Kombi verde, com uma máquina de sorvetes na porta, colocava ainda mais brilho em nossos olhos. Por vezes, minha mãe dizia que tomaríamos na volta e, então, para não largar a sua mão.
Assim, seguíamos nossa aventura, indo ao mercado, ao médico, sendo que a consulta, por vezes, terminava com uma parada na farmácia do Carmelli, bem ao lado da igreja, onde aguardávamos, ansiosos, para tomar uma deliciosa Fanta, sob a severa instrução de mãe de que, se chorássemos, seria pior. Após a injeção, de volta, o sorvete vinha como conforto; no frio, no calor, dor de garganta, não havia sequer possibilidade.
Embarcávamos em nossa viagem de volta felizes, se possível, que o ônibus fizesse um trajeto mais longo para podermos aproveitar ainda mais aquele dia.
Assim, os filhos eram arrancados do calendário; o tempo, depois, já longe de nossas casinhas, sob o olhar de nossa mãe na janela, que, por certo, mentalizava-nos em uma prece. Essa saudade tem acompanhado o dia a dia, em que persistimos; toda aquela magia ia se dissipando, deixando-nos apenas a lembrança e a saudade de não termos mais a possibilidade de sermos guiados por aquelas mãos.

Jorge Innocêncio da Costa é advogado formado pela UNIARA, é especialista em Propriedade Industrial pela WIPO e UFSC. Membro da DLG (Sociedade Agrícola Alemã). Perito judicial no TJ-SP. Palestrante, Articulista há 25 anos, fala alemão, francês, inglês, espanhol e latim. Autor de três livros sobre Propriedade Industrial e proteção tecnológica no agronegócio.



