- Luciana Prado

- 7 de mai.
- 2 min de leitura

Autora: Luciana Prado
Deus me deu a graça
de ver o mundo
pelos olhos de um homem,
mas de tê-lo gerado
no silêncio escuro
do meu corpo
de mulher.
No Aeroporto,
os aviões riscam o céu
com pressa de partida,
mas aqui no Flamboyant,
o tempo
é o que demora
no prato da janta.
Criar filho homem
é aprender
uma língua
de gestos largos
e barulhentos.
É ver
a minha própria ternura
se transformar
em braços fortes,
em vozes que engrossam
e em pés
que trazem o barro da rua
para o tapete.
Eu olho para eles
e vejo o mistério:
como pode
tanta força
ter vindo de mim?
Minhas mãos,
que lavam
as camisas suadas
do futebol,
são as mesmas
que buscam no terço
a paciência
dos santos.
Educar um homem
em Matão
é um ofício
de paciência
e de reza.
É ensinar
que a força de verdade
não está no punho,
mas no peito.
E que o choro,
quando vem,
é a alma
lavando a vidraça
do espírito.
Não é fácil,
eu confesso
entre o café
e a lida.
É um cansaço
que tem cheiro
de amaciante
e de vida vivida.
Mas quando eles sorriem,
e o sol bate
nas janelas
das nossas casas,
eu percebo
que a minha jornada
não tem fim,
nem precisa.
Sou mãe de homens,
guardiã
de futuros heróis
do cotidiano.
Minha glória
é o feijão
bem temperado
e a certeza
do dever cumprido.
Pois no reino de Deus,
que também fica
aqui no Aeroporto,
o maior milagre
é a mulher
que ensina o homem
a ser humano.

Luciana Prado é pedagoga e orientadora educacional, nascida no interior paulista e moradora de Matão há mais de duas décadas. Atua em projetos sociais ligados à formação de jovens e famílias, desenvolvendo trabalhos voltados à educação, valores humanos e convivência comunitária.



