

Autora: Maria das Dores (Dona Dorinha)
Eu sempre digo que a vida não é um tecido pronto; é um alinhavo que a gente refaz todo dia. Quando fiquei sozinha com três filhos e uma máquina de costura velha lá na Nova Matão, o medo era meu vizinho de parede. Lembro de uma noite, sob a luz de uma lâmpada fraca, que chorei sobre um vestido de noiva que precisava entregar.
Minha filha mais velha, ainda pequena, encostou a mão no meu ombro e disse: 'Mãe, a senhora não tá costurando pano, tá costurando nossa história'.
Aquilo mudou tudo. Parei de ver a sobrecarga e comecei a ver o legado. Abri mão do sono, mas nunca da dignidade. Hoje, meus filhos são doutores no que escolheram ser, e eu? Eu ainda costuro. Mas agora, costuro por prazer, no meu tempo, lembrando que cada ponto apertado lá atrás foi o que sustentou a liberdade que eles têm hoje. Superar não é esquecer a dor, é transformá-la em fôlego.
Qual foi o momento em que a senhora pensou em desistir e o que a impediu?
"Foi quando a máquina quebrou e eu não tinha o valor do conserto. O que me impediu foi olhar para o caderno de escola dos meus filhos em cima da mesa. Eu sabia que, se eu parasse, o futuro deles parava junto."
Que conselho a senhora daria para a mãe que está hoje, agora, se sentindo sobrecarregada em Matão?
"Que ela não tente ser perfeita. A perfeição é inimiga da paz. Faça o seu melhor com o que tem, mas reserve cinco minutos para respirar e lembrar quem você é além de ser mãe."
Como a senhora define o "Legado que nos Une" em sua vida?
"É o fio invisível que liga o sacrifício da minha mãe ao sucesso dos meus netos. É saber que nada do que foi feito com amor se perde no tempo."




