- Marcos Leonardo Araruna

- 7 de mai.
- 2 min de leitura

Autor: Marcos Leonardo Araruna
Olha ela ali,
na Praça da Matriz.
Atrás do balcão do truck,
rainha do próprio asfalto,
com o avental manchado de luta
e um cheiro de lanche
que seduz a noite.
É mãe.
É dona.
É caixa.
É o próprio motor
que faz a vida girar.
Vira o hambúrguer
com a mesma maestria
que vira o mundo
pra caber o dever de casa do filho
num cantinho da bancada,
entre o ketchup
e o sonho.
Sobrecarga?
A palavra é pequena
pra essa arquitetura
de ser tanta.
É o calor da chapa no rosto
e o frio na barriga
de quem empreende
no peito
e na raça.
Enquanto o coração bate
no ritmo do:
“Mãe, cadê minha meia?”
a mão entrega a nota fiscal
com a delicadeza
de quem oferece uma flor.
Dizem que ela é guerreira,
mas ela só queria ser gente.
Gente que descansa.
Que olha o chafariz sem pressa.
Que não precisa ser
o pilar
e o teto
ao mesmo tempo.
Mas se o destino é fogo,
ela se faz fênix
entre os molhos.
Lá vai ela,
matonense brava,
tecendo o sustento
no meio do buxixo.
A Praça da Matriz
é o seu palco.
O Food Truck,
o seu castelo de metal.
E a sobrecarga...
Ah, a sobrecarga
ela transforma em músculo,
em poesia bruta,
em legado
que se come quente,
com gosto de coragem
e tempero
de quem sabe que,
em Matão,
o amor também se serve
com batata palha
e muita fé.

Marcos Leonardo Araruna é cronista e redator cultural paulista. Formado em Letras pela USP, viveu em Matão por 15 anos, período que influenciou diretamente sua escrita. Dedica-se à produção de livros e textos sobre o cotidiano, as relações humanas e as histórias que dão vida às cidades.



