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Cena da conferência de imprensa
  • Foto do escritor: David Liesenberg
    David Liesenberg
  • 15 de abr.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 24 de abr.

Autora: David Liesenberg



Escrevo como filho de mãe viva. E sei que isso, por si só, já é um privilégio que nem todos têm.Minha mãe mora numa casa de repouso em Matão há quase quatro anos. Com todo o respeito às demais, considero que é a melhor casa de cuidados a idosos da cidade. Uma queda dentro de casa quebrou o fêmur, deixou uma perna mais curta, e ficou claro que ela não poderia mais ficar sozinha. A demência foi chegando devagar, como sempre chega, roubando palavras, depois datas, depois rostos. Mas ela continua nos reconhecendo. Continua nos recebendo com aquele jeito cativante que sempre foi dela, aquela educação e simplicidade que nenhuma doença conseguirá levar.


Filha em momento de carinho com sua mãe

Eu e minha irmã vamos até ela todos os dias. Quando precisa ir ao médico, ao cabeleireiro, fazer exames, ou simplesmente comer uma pizza, estamos lá. Não conto isso para parecer um bom filho. Conto porque, nessa convivência diária com o ambiente de uma casa de repouso, percebi algo que me pesa: muitos dos idosos que vivem ali raramente recebem visitas. Alguns, nunca. Também foram pais e mães. Também perderam noites de sono por causa de filho com febre. Também guardaram o melhor pedaço para os filhos na hora da refeição. Olhar para eles me faz pensar na minha própria história, e no quanto demorei para entender certas coisas.



Lembro da minha infância com carinho e com saudade. Minha mãe nos criou com o que tinha. Depois que meu pai foi embora, ela, que era "do lar", precisou reinventar a vida para sustentar a família. Começou a trabalhar com consultoria a aposentadorias. Economizamos para comprar o primeiro carro, um Fusca azul. Passamos por privações que, na época, não entendíamos tão bem. Mas nunca faltou o essencial, e o essencial, descobri mais tarde, era muito mais do que comida na mesa. Era a certeza de que ela estava ali.


Lembro-me da macarronada de domingo, com molho de tomate feito com bracciola, cozinhando por horas. Da massa aberta em casa, com minha avó ao lado, descendente de italianos, de avental, e eu desfazendo o nó do avental dela e saindo correndo da cozinha. Lembro-me do gosto do Biotônico Fontoura e do horror do óleo de fígado de bacalhau, embalado com o nome bonito de Emulsão de Scott. Lembro-me de ser carregado no colo pelos corredores do hospital, porque era uma criança cheia de problemas de saúde, e ela era mais jovem e tinha força para isso.


Essas memórias têm um sabor que nenhum restaurante do mundo reproduz. E só fui entender o tamanho delas quando ela já não conseguia mais fazê-las.



Filho e mãe em passeio pelo parque

A vida tem uma lógica que a gente resiste em aceitar: chega um momento em que os papéis se invertem. A pessoa que nos cuidou passa a precisar de cuidados, e é justamente aí que muitos filhos e filhas somem, ocupados demais, distantes demais, ou ainda presos em mágoas antigas que o tempo não dissolveu.


Entendo que nem toda relação entre pais e filhos foi bonita. Sei que há histórias de abandono, de ausência, de erros que deixaram marcas. Mas maturidade é, entre outras coisas, a capacidade de relevar, de perdoar, de não deixar que o passado impeça um gesto de humanidade no presente. Honrar uma mãe, ou um pai, não exige que a história tenha sido perfeita. Exige apenas que a gente reconheça que foi ela quem nos deu a oportunidade de estar aqui.


Se a sua mãe ainda está viva, e se a relação entre vocês ainda permite um abraço, uma ligação, uma visita, não adie. O arrependimento de não ter ido é um peso que ninguém carrega bem. E, ao contrário do que a vida nos ensina sobre quase tudo, esse é um prazo que não se negocia e não se recupera.,


Neste Dia das Mães, antes da mensagem no grupo da família ou da foto antiga postada nas redes, vale uma pergunta honesta para cada um de nós: quando foi a última vez que fui até ela de verdade, não de passagem, não para resolver algo, mas só para estar do lado dela?


Enquanto você ainda pode, vá até ela.


Foto de David Liesenberg

David Liesenberg paulistano da Mooca, é graduado em Economia pela Universidade São Judas Tadeu e pós-graduado em Comunicação Institucional pela UNAERP. Atualmente é Assessor de Comunicação e Relacionamento no Hospital Carlos Fernando Malzoni em Matão.

 
 
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