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Cena da conferência de imprensa
  • Foto do escritor: Paulo César Cedran
    Paulo César Cedran
  • 4 de mai.
  • 5 min de leitura

Autor: Paulo César Cedran



As mães não poderiam morrer jamais. Essa frase pode ser considerada o maior clichê; algo piegas até, num momento em que a monetização em torno do chamado “Dia das Mães” faz do comércio o ente que fala mais alto nas propagandas, vídeos e em todo estímulo a que somos expostos no mês de maio, para emplacar e ampliar as vendas e movimentar o comércio no sistema capitalista e hiperconsumista em que vivemos.


Diante desse vazio espetáculo em que acreditamos que o ser substitui facilmente o ter, ou melhor, pode ser facilmente substituído pelo ter, procuramos “presentear” nossas mães, e assim acreditamos que, pelo menos, ou ao menos, por um dia, cumprimos mais uma tarefa e comemoramos o seu dia. Mas, na verdade, não existe Dia das Mães. O que existe é a mãe, o ser mãe, e, portanto, a frase com que iniciei minha reflexão dirige-se a todos aqueles que, física ou até mesmo espiritualmente, já não possuem suas mães.


Explico melhor. Se reduzirmos a presença da figura materna apenas ao seu dia, mesmo ela estando em nosso meio, podemos dizer que, pouco a pouco, estamos perdendo o que de melhor nossas mães podem nos oferecer. Se elas já não se encontram em nosso meio, pois partiram dessa vida e nós não conseguimos mais manter também uma conexão com elas, também perdemos a possibilidade de manter laços que, a meu ver, são eternos e indissolúveis. De ambas as formas, elas, de fato, morreram.


Mãe de Paulo C. Cedran.

Digo isto porque a sensação de orfandade se apossou de mim quando tomei consciência de que minha mãe havia morrido no dia 19/01/2021, e somente não é maior pelas estratégias de sobrevivência que, aos poucos, fui e ainda estou construindo para juntar meus pedaços, diante de algo que é tão previsível como a morte, mas, ao mesmo tempo, tão misterioso e inexplicável como os sentimentos que ela produz em cada um de nós. Sabemos, como seres racionais, que uma das primeiras manifestações humanas que caracterizou o início do que podemos chamar de passagem do mundo da natureza para o da cultura foram os rituais fúnebres realizados pelo homem primitivo e suas manifestações simbólicas, através dos processos de representação de imagens humanas nas pinturas rupestres e de inumação dos mortos. Essa aquisição de sentimentos que, de alguma forma, aparece no mundo animal, é separada por uma tênue linha do que chamamos seres racionais e irracionais. Não quero entrar nessa seara porque, às vezes, meu niilismo considera mais “racional” algum comportamento instintivo “animal” do que o próprio racionalismo do “ser humano”, criado à imagem e semelhança de Deus, que até envergonha o seu Criador.


Mas, pensando na mãe, como sobrevivo? Vivendo daquilo que me alimentou, acredito eu, desde o tempo de criança, quando direcionei meus desejos, minhas vontades, meus estudos para as ciências humanas, para a sociologia, para a ciência da religião e a história. Um apaixonado pelo passado, que às vezes me pego vagando em outros tempos e fazendo, como diz a canção: “nas lembranças um lugar seguro”. São elas, as lembranças, que não deixam minha mãe morrer.


Converso no vazio que ficou em minha casa, hoje habitada por mim e meu pai, além de um cão, um gato e uma gata, como se minha mãe ainda estivesse aqui. A gata que ela criou, recém-nascida, de olhos fechados, na mamadeira, é como se fosse uma filha que eu olho e pergunto: Onde está a nossa mãe? E ela olha perdidamente para mim e ao redor, querendo responder: “está aqui” – “você não vê”?


O gato, carinhosamente chamado de Cedranzinho, acompanha meu pai em seu leito de casal e dorme no lado em que minha mãe dormia, como se fosse agora a sua companheira em seu lugar. O cachorro me faz recordar a alegria que ela teve quando o médico lhe deu alta para passar a semana do Natal em casa, quando lhe disse: “que vontade tenho de voltar para casa e poder dar um banho no meu cachorro”.


Tudo está igual. A disposição dos móveis, o uso do óleo de peroba no dia da limpeza, as toalhas de crochê que ela gostava de colocar, o jeito de limpar a casa, os dias certos de trocar as roupas de cama e de banho. Seu pedido para não esquecer de trocar as vasilhas de água do cachorro ou de molhar as plantas está sendo atendido prontamente.


Suas roupas, calçados e bolsas foram doados para as amigas e parentes que estão usando e, com certeza, ela está satisfeita de vê-las assim. Seus itens de alumínio continuam bem areados, conforme ela gostava. O que falta é o cheiro da macarronada sendo preparada, o pedido de meio comprimido por volta das duas da manhã para continuar dormindo. Mas essas faltas são tão poucas perto de tanta presença que ainda fica e ficará. Quantos planos fizemos quando ela dizia: logo você se aposenta e a gente vai fazer isso e aquilo, e não deu tempo para ela esperar eu me aposentar.


Paulo C. Cedran a lado da Mãe em cerimônia de formatura.

E eu me pergunto: quantos planos podemos fazer? Quanto tempo eles duram? Que projetos, que domínios ou perspectivas sobre eles nós temos? Soa até engraçado, para não dizer trágico, quando o salmista na Bíblia diz: Sessenta, setenta anos, quanto tempo mais dura uma existência? Se mais o for, serão momentos de dor e sofrimento.


Bem assim eu lembro. Estava com setenta e quatro anos, feliz e realizada, lavando as roupas dos netos, Rafael e Pedro, enchendo o varal com roupinhas e preparando receitas de sabão, que eram as suas duas maiores alegrias. Em certa ocasião me disse: “tenho até medo de pensar, estou vivendo um momento tão feliz de minha vida que nem acredito”. Mas, nesse vale de lágrimas que é nossa vida terrena, a alegria dura muito pouco.


Acometida por um câncer no esôfago, diagnosticado em setembro de 2020, submeteu-se à cirurgia em novembro do mesmo ano, vindo a falecer em janeiro de 2021. Assim se vai uma vida, assim se vai uma mãe. Ou melhor, como digo, não se vai, não morre, é eterna.

Sonho com ela, converso com ela, sinto seu cheiro e seu abraço quando me visita. Sinto-a bem pertinho de mim. Às vezes vem só, outras vezes vem acompanhada de meus avós, tios e tias, amigos, parentes, enfim, de todos nossos antepassados e entes queridos que se encontram na casa do Pai, cuidando e intercedendo por nós.


Quando bate muito a saudade, acendo uma vela de sete dias num pequeno oratório que fiz para ela, junto com uma foto. Nele estão três imagens: uma de São Jorge, que protege nossa casa; outra de Nossa Senhora da Conceição Aparecida; e de São Judas Tadeu, santos de sua devoção. Coloco ali um copo d’água e um belo vaso de flor. Oro, converso, choro e agradeço.


No cemitério também cuido, mas vou com menos frequência, pois lembro bem o que ela dizia quando faleceu a dona Olga Furlanetto, que fazia unha na casa de minha prima Duda Cedran, em horário próximo ao dela. Por coincidência, também está sepultada em túmulo próximo ao de minha mãe.


Quando passávamos em frente ao cemitério aos domingos à tarde, indo visitar nossos tios num sítio em Taquaritinga, ela dizia: “fico imaginando, a Olga, uma pessoa tão contente e feliz, o que fica fazendo aí no cemitério deitada, dormindo?”


Ainda prefiro encontrá-las na hora em que elevamos nossos pensamentos aos nossos entes queridos, no momento da missa em que recordamos daqueles que já estão habitando a casa do Pai. Aqueles que nos criaram neste pedacinho de chão e nas memórias que, dia a dia, cotidianamente, estão povoando nossa mente, pois aquela que, na hora de nossa concepção até a hora de nosso nascimento e crescimento, nunca nos abandonou e jamais será esquecida, nossa mãezinha querida, como nossa mãe Maria, mãe de Jesus, nosso Salvador, viva todas as mães!


Foto de Paulo César Cedran

Paulo Cesar Cedran é Supervisor de Ensino – URE de Taquaritinga (SP), Mestre em Sociologia e Doutor em Educação pela UNESP – Campus de Araraquara (SP) e Docente do Centro Universitário Moura Lacerda – Ribeirão Preto (SP).

 
 
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