- Murillo Trevisanello Pinotti

- 16 de abr
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Atualizado: 24 de abr

Autor: Murillo Trevisanello Pinotti
Ao celebrarmos o Especial Dia das Mães de 2026, o tema proposto para reflexão, o legado materno, nos convida a lançar um olhar que ultrapassa os limites do ambiente doméstico e familiar. Historicamente, a figura da mãe, e da mulher em toda a sua pluralidade, foi associada ao cuidado privado. No entanto, o verdadeiro legado que as mulheres estão construindo na contemporaneidade é a transposição desse "cuidar" para a esfera pública, atuando como peças fundamentais na engrenagem democrática, especialmente dentro dos Conselhos Municipais, objeto da minha análise neste artigo.
Os Conselhos Municipais são o coração da participação popular. São nesses espaços que a sociedade civil se senta à mesa com o poder público para debater, formular e fiscalizar as políticas que impactam diretamente o nosso cotidiano nos municípios. E é exatamente neste cenário de tomada de decisão que a presença feminina se prova não apenas importante, mas estruturalmente indispensável.
A sociedade impôs às mulheres, ao longo de séculos, a gestão quase exclusiva das necessidades mais básicas da família. Embora essa dinâmica seja fruto de uma estrutura patriarcal que precisa ser continuamente desconstruída, é inegável que ela forjou nas mulheres uma percepção aguda e pragmática sobre as reais lacunas do Estado. Quando uma mulher passa a ocupar um assento em um Conselho de Saúde, de Educação, de Assistência Social ou de Desenvolvimento Urbano, ela leva consigo não apenas sua competência técnica, mas a vivência empírica de quem sente, na pele, o peso das falhas nas políticas públicas.

O olhar feminino para a cidade é interseccional por natureza. Uma mãe que debate mobilidade urbana pensa na viabilidade das calçadas para um carrinho de bebê. Uma filha que integra o conselho de saúde traz a urgência de políticas de amparo aos idosos e de acessibilidade. Uma jovem mulher discutindo segurança pública introduz a pauta inegociável da iluminação adequada e do combate ao assédio, temas que muitas vezes passam despercebidos por uma ótica exclusivamente masculina. A diversidade de gênero nos conselhos garante que as decisões tomadas reflitam a realidade da maior parte da população, promovendo uma cidade que acolhe a todos de forma equitativa.
Entretanto, é preciso que sejamos francos sobre os desafios. A jornada para ocupar e permanecer nesses espaços é frequentemente marcada por duplas ou triplas jornadas de trabalho. Exigir a participação feminina na vida pública sem que haja uma correspondente divisão justa das tarefas domésticas e de cuidado no âmbito privado é uma vitória incompleta. O machismo estrutural ainda tenta invalidar as vozes femininas nos espaços de poder, rotulando suas demandas urgentes como secundárias ou reagindo com condescendência à sua assertividade política.
Por isso, o legado que celebramos hoje é o da ruptura. O legado das mães, avós, tias e filhas de Matão, do estado de São Paulo e do Brasil não é feito de um sacrifício silencioso, mas sim de uma transformação ativa e corajosa. Ao ocuparem os espaços de controle social, elas estão reescrevendo a história das nossas políticas públicas. Valorizar a mulher nos Conselhos Municipais é entender que a construção de uma sociedade justa depende da pluralidade de vozes na mesa de decisão. Que o nosso reconhecimento vá além das homenagens pontuais e se transforme em apoio político real.
Que possamos garantir que toda mulher tenha não apenas o direito, mas as condições materiais e o respeito necessários para exercer sua cidadania plena, liderando os rumos da nossa cidade em direção a um futuro mais humano e igualitário.

Murillo Trevisanello Pinotti, 28 anos, é formado em Administração Pública pela UNESP - Araraquara, especialista em Gestão de Projetos pela USP/ESALQ e mestrando em Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente pela UNIARA. Atualmente, atua como Diretor de Programas Sociais na Prefeitura de Matão, destacando-se como o diretor mais jovem do município. É também professor do curso de Administração no IMMES.



