- Helena Duarte

- 7 de mai.
- 1 min de leitura

Autora: Helena Duarte
Não sou mais
a menina
que colhia flores
nos quintais de Goiás.
Sou a mulher de Matão
que planta esperança
nos chãos
da Abolição.
Meu filho trouxe
um mundo
que não veio nos livros,
um mundo
de silêncios longos
e de cores
que só o coração lê.
Dizem que ele é “atípico”,
palavra difícil
de quem não sabe amar
o detalhe.
Eu digo
que ele é verso livre
em página
de métrica severa.
Na Praça da Abolição,
onde o povo passa
com pressa de chegar,
eu estendo
meu estandarte:
o direito
de ser,
de estar
e de brincar.
Minhas mãos,
calejadas de lutar
contra as portas fechadas,
são as mesmas
que afagam o medo
e decifram
o olhar.
Ser ativista
é como fazer doce de figo:
exige paciência,
fogo brando
e a fé
de que a doçura
vai chegar.
Não quero privilégios.
Quero o mundo
largo
e plano,
onde o meu filho
possa caminhar
sem o tropeço
do preconceito humano.
A inclusão
não é favor.
É o fermento
da nossa gente.
É entender
que cada alma floresce
de um jeito diferente.
Aqui,
sob as árvores
da nossa praça querida,
eu teço o amanhã
com os fios
da própria vida.
Sou mãe.
Sou autista.
Sou voz
que não se cala.
Sou a força da terra
que na Abolição
se instala.

Helena Duarte é professora, pesquisadora social e defensora de pautas ligadas à inclusão e aos direitos humanos. Natural de Goiás e radicada no interior paulista, utiliza a escrita como forma de reflexão sobre maternidade, diversidade e transformação social.



