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Cena da conferência de imprensa
  • Foto do escritor: Ana Maria Ignácio
    Ana Maria Ignácio
  • 6 de jul.
  • 3 min de leitura

Autora: Ana Maria Ignácio



A forma como a sociedade enxerga e acolhe as crianças nem sempre foi pautada pelo afeto e pela proteção que conhecemos hoje. Desde a Antiguidade, mulheres e crianças partilhavam uma condição de inferioridade social e de tratamento desigual. Naquela época, o conceito de "infância" sequer existia na mentalidade coletiva. Os primeiros anos de vida eram marcados pela indiferença, e os menores eram expostos a liberdades grosseiras e comportamentos inadequados para a idade, sem que houvesse qualquer noção de respeito ou crença na inocência infantil — uma realidade que choca os padrões atuais, mas que era vista como perfeitamente natural no passado.



Crianças bricando em ambiente externo.

A própria origem da palavra "infância" carrega essa bagagem histórica. Derivado do latim in-fans, o termo significa literalmente "sem linguagem". Na tradição filosófica ocidental, a falta de fala era associada à ausência de pensamento, conhecimento e raciocínio. Sob essa ótica, a criança não era vista como um indivíduo pleno, mas sim como um ser a ser estritamente condicionado, moralizado e educado pelos adultos.


Historicamente, os primeiros anos de vida foram marcados por severas formas de violência, uma constante que atravessou as civilizações mesopotâmica, egípcia, grega, romana e a Europa medieval. Durante a Idade Média, o período considerado como infância terminava abruptamente com o desmame, por volta dos seis ou sete anos. A partir desse momento, a criança era inserida no mundo dos adultos: passava a trabalhar lado a lado com eles e a frequentar os mesmos ambientes noturnos e as mesmas tabernas.


A fragilidade da vida nesse período também moldava as relações familiares. Diante das altíssimas taxas de mortalidade infantil, a perda de um filho era frequentemente encarada com frieza e neutralidade, sob a perspectiva de que a criança falecida poderia ser rapidamente substituída por outra.


O destino dos sobreviventes dependia diretamente de sua classe social:


Crianças de famílias pobres: eram precocemente inseridas no mercado de trabalho, sem qualquer distinção ou proteção em relação aos operários adultos.


Crianças da nobreza: embora tivessem acesso a educadores, eram tratadas apenas como "miniaturas de adultos", moldadas exclusivamente para cumprir papéis sociais no futuro.


Embora o senso comum muitas vezes confunda "criança" (o indivíduo biológico) com "infância" (o conceito social), a percepção de que essa população necessita de um espaço próprio na sociedade é uma construção histórica recente, consolidada apenas com o advento da Modernidade e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).


Crianças sorridentes olhando pela janela de um ônibus

Nos primeiros anos de vida, o ser humano necessita de cuidados indispensáveis para garantir sua sobrevivência física, emocional e mental. O desenvolvimento psicológico inicial da criança é profundamente centralizado na figura materna, que atua como o principal porto seguro e provedora de cuidados, até que ela passe a compreender e interagir com a figura paterna e com o restante do ambiente familiar. Muito embora as mães estejam no centro do cuidado, ressalta-se que os homens também devem assumir essa função no cuidado com as crianças.


Hoje, sob a ótica dos direitos humanos, essa perspectiva mudou drasticamente. Crianças e adolescentes são reconhecidos como sujeitos de direitos em pleno desenvolvimento. Por não possuírem autonomia plena, necessitam obrigatoriamente do amparo, da proteção e da tutela dos adultos para garantir não apenas a sobrevivência, mas também o direito a uma infância plena e digna.


Conclui-se, portanto, que a transição de crianças e adolescentes para a condição de sujeitos de direitos exige uma postura ativa da sociedade e do Estado. Garantir a proteção integral e o amparo dessa população não é apenas uma obrigação legal, mas um compromisso ético fundamental para assegurar o desenvolvimento de cidadãos conscientes e a construção de uma sociedade mais justa e digna. Eis o desafio!


Foto de Ana Maria Ignácio

Ana Maria Ignácio é Assistente Social e Conselheira Tutelar, com atuação voltada à proteção de direitos e ao fortalecimento de famílias e comunidades. Sua trajetória é marcada pelo compromisso com a justiça social, a defesa da infância e a promoção da dignidade humana.


 
 
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