- José Amarante

- 14 de abr.
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Atualizado: 24 de abr.

Autora: José Amarante

Nessa data especial em que se comemora o Dia das Mães, presto aqui uma singela homenagem para todas as mulheres negras do nosso município de Matão. Desejo a todas, sem exceção, um caloroso e carinhoso abraço e os nossos parabéns pelo especial dia, não somente por terem bem criado os seus próprios filhos com muito amor, responsabilidade e carinho, tendo lhes ensinado a valorização dos estudos, da nobreza do trabalho e da virtude da honestidade, mas também por terem ajudado na criação de muitos outros filhos das mães brancas, por meio do trabalho que prestavam nas casas dos seus patrões, contratadas que eram na simples condição de empregadas domésticas. Muitos desses filhos das mães brancas, ajudados que foram em suas criações pelas respectivas mães negras cuidadoras, graduaram-se em vários cursos de nível superior de várias universidades e faculdades desse país e exerceram ou exercem atividades profissionais diversas no nosso meio, nas áreas empresariais, engenharias, medicina, atendimento à saúde, professores, cientistas, jornalistas, advogados, etc.
No bairro IVº Centenário, eu conheci algumas dessas mulheres, as quais eu considero verdadeiramente como mulheres especiais; mães negras que trabalhavam como empregadas domésticas no centro da cidade de Matão e que ajudaram a cuidar dos filhos das mães brancas patroas. Uma dessas mulheres foi a minha mãe, a finada dona Leonilda Amarante. Ela era uma mulher admirável: honesta, trabalhadora, caridosa e de muita fé em Deus; rezava constantemente e, pelo exemplo da sua fortaleza e perseverança, apontou-nos qual o caminho que deveríamos seguir, caminho esse da Igreja Católica.

Numa época em que existiam as privações dos direitos das mulheres, em que pouquíssimas delas eram alfabetizadas, minha mãe lia muitíssimo bem e era aplicadíssima na leitura de revistas e jornais. Ela fazia questão de supervisionar todas as nossas tarefas escolares; olhava constantemente os nossos cadernos e os nossos materiais e nos falava carinhosamente quando apareciam inconsistências feitas por nós. No trabalho, ela exercia com excelência e afinco a função de cozinheira. Era uma cozinheira excepcional, muito disputada pelas famílias tradicionais da nossa cidade de Matão. Não tenho outra lembrança que não seja da minha mãe trabalhando, rezando e/ou nos ensinando, por meio de histórias infantis, sobre os valores e as virtudes humanas.
Quando adolescente, minha mãe trabalhou como babá na casa da senhora Anita Artimonte e do senhor Rino Malzoni, ajudando na criação do filho desse casal, um menininho cujo apelido carinhoso era “francisquinho”, alcunha do nome Francisco Malzoni. Minha mãe sempre nos falava com muito amor e carinho desse menino e, dentro das suas lembranças, ela sempre trazia para dentro da nossa casa, por meio de diálogos, os cuidados que prestava na criação do menino “francisquinho”, isso na sua condição de babá. Ela nos dizia que o amor era tanto entre ela e o menino que minha mãe não podia tirar folga nem para descansar junto com a família dela e que constantemente tinha que viajar com a família dos patrões, pela falta que o menino sentia da sua babá, nesse caso, minha mãe, dona Leonilda. Posteriormente, quando esse menino cresceu, transformou-se em um dos maiores empresários do nosso país.
Daí advém todo o meu carinho e respeito para com todas as nossas mamães pretas. Eu considero que essas mães negras não podem ser consideradas simplesmente empregadas domésticas que foram em suas épocas, e que exerceram reles funções formais dos empregos domésticos, mas sim, essencialmente, devem ser reconhecidas como segundas mães e educadoras infantis dessas crianças, isso em épocas mais remotas e muito mais difíceis que nossas épocas atuais.
Se atualmente o mundo respira saber e ciência, desenvolvimento e avanços tecnológicos, creiam que sempre existiram e/ou existem diversas mães pretas presentes (mesmo que escondidinhas) na sustentação das bases de várias famílias tradicionais da nossa cidade de Matão, do nosso estado e também do nosso país.
Um Axé a todas as mães pretas do nosso município de Matão.

José Amarante é Coordenador do Projeto Coração e membro do Movimento Negro IVº Centenário, com atuação voltada ao fortalecimento comunitário e à valorização da cultura e da identidade negra. Sua trajetória é marcada pelo engajamento social e pela promoção de iniciativas que contribuem para a inclusão, a consciência histórica e o desenvolvimento da comunidade.



